"Costumo dizer que existe uma diferença fundamental entre desilusão e decepção. A primeira tem a ver com ideias ou fantasias que criamos sobre determinada pessoa ou situação que, com o tempo e a experiência, se apresenta totalmente diferente na realidade. A decepção é mais forte. É quando conhecemos algo ou alguém, temos uma ideia formada sobre essa pessoa e encaramos um revés, uma mudança sem avisos, um turbilhão de comportamentos e julgamentos diferentes do que havíamos conhecido e experimentado. É quando surge a dúvida mais cruel que uma pessoa pode ter em relação à outra, quando nos perguntamos: Será que foi sempre assim e eu não percebi? Será que essa pessoa estava escondendo essa faceta de mim e a enganar-me todo este tempo?Existe ainda uma diferença fundamental entre decepção e traição. Não se trata apenas de semântica, mas de questões mais fortes e profundas que está relacionado com crenças individuais, avaliações de cada um. Trair é descumprir o pactuado é não ser sincero, é ser fraco e se deixar levar. Decepção é quando, além disto, se coloca em jogo não apenas uma atitude ou comportamento, mas também um conjunto de valores que extrapolam a questão pessoal e atingem o outro por vezes de forma deliberada.Vivemos num mundo de superficialidades, de simulacros, de enganos. Não é raro que algo ou alguém se apresente de uma forma durante um tempo e depois acaba por se revelar como realmente é. Quando mais achamos que uma relação esta estabilizada, mais fácil acontece uma mudança brusca e coloca por água a baixo tudo o que foi idealizado no berço do sonho.
Quando somos vitimas de uma situação assim o sentimento varia entre a incredulidade e o trauma, muitas vezes a sensação de humilhação, impotência, tristeza é forte e desagua numa descrença imensa. No entanto, quando somos nós que produzimos a decepção, que magoamos o outro, que mudamos o rumo da situação aí a conversa muda. Apelamos para "forças das circunstâncias", para mil prerrogativas, artifícios, desculpas e alternativas. Nada mostra tanto a dualidade e a incoerência do ser humano como a sua capacidade de agir diante de uma decepção. Trata-se de um ser quando é alvo dela e outro quando a produz.
Decepcionar alguém não é somente produzir comportamentos e situações diferentes das que esperávamos e das que estavam pactuadas, acertadas, esperadas. É demonstrar de forma incisiva e clara um comportamento que não era condizente ao que se estava produzindo. Mudar o rumo no meio da estrada quando o outro estava nos esperando ali na esquina, atendendo ao nosso aviso. Prometer A e produzir B. Sair pra comprar cigarros e não voltar mais, deixando alguém esperando."
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